Do Meu Quarto ao Calvário

de Carlos Eduardo Felix

 

Essa foi mais uma daquelas semanas em que oramos no ponto do ônibus e lemos nossa Bíblia em uma cadeira na estação do metrô. As contas foram pagas, os documentos foram entregues, os avisos já foram ditos e os clientes satisfeitos (nem todos, é verdade, mas tentamos.) Corremos para no final da corrida ganharmos alguns números a mais em nossa conta.



 

Então só nos resta correr contra o relógio, contra a lógica, contra a distância, contra o contentamento. Se você é um auxiliar de escritório sabe do que estou falando. Se sua vida é tão corrida, talvez esteja balançando a cabeça como quem entende. Mas o dia já passou e com ele toda o corre-corre e frustração.

A noite, e principalmente depois das dez horas, traz um silêncio Divino, e com ele o contentamento.

Um hino já foi cantado. Uma oração já foi feita e outra está a caminho. O único som que envolve meu quarto é o de meu lápis rabiscando estas folhas e de meu ventilador que me traz um vento confortante.

Tenho descoberto que este é o melhor horário para escrever. Observamos melhor a vida de um carpinteiro chamado Jesus quando temos tempo e o silêncio ao nosso favor.

É em momentos assim que sentimos melhor sua mão sobre nossos ombros e visualizamos melhor seu sacrifício em uma cruz. Ou contemplamos o triste detalhe de que os primeiros passos dados em direção à sua morte foram conduzidos por um beijo de seu próprio discípulo. Até enxugamos uma lágrima que cai de nossa face na penumbra da noite, quando fitamos os pregos romanos que já rasgaram sua carne. Acabamos vendo que, os mesmos soldados, ainda achando pouco todo seu sofrimento, o agrediram com palavras cheias de veneno.

Sorrimos para nós mesmos quando vemos a cara de espanto dos discípulos quando ouvem a notícia: "Ele ressuscitou. Eu o vi".

Enquanto todos dormem, eu decido andar um pouco pelas ruas de Jerusalém e da Galiléia. Subir até o monte. Ver alguns milagres e curas. Ouvir alguns sermões e me alegrar com o amor de um homem chamado Jesus.

E da próxima vez que você tiver um pouco de tempo e de silêncio faça-me um favor: vá até o calvário. E se seu tempo for muito corrido, não se preocupe, pois ele estará lhe esperando no fim do dia para levá-lo até lá. E se por acaso você dormir enquanto ele te leva, não se preocupe, pois qual é o filho que nunca dormiu nos braços do pai?

Boa noite.

 

Copyright © 2003 Carlos Eduardo Felix. Todos os direitos reservados.