Sob a Lua da Páscoa

de Ann Spangler e Lois Tverberg

 



 

Nota: do blog de Lois Tverberg – Nosso Rabino Jesus: Sua vida Judaica e Ensinamento.

Isto é uma citação do livro “Sentando aos Pés do Rabino Jesus: Como o Judaismo de Jesus Pode Transformar Sua Fé”. Usado com permissão. Nós acreditamos que este livro é digno de seu tempo e atenção!

A lua cheia da Páscoa olhava para Jesus. Sua luz passando através das folhas que balançavam da oliveira, seus galhos tremendo com a brisa do início de abril. Apesar do frio da noite, o suor brilhava na sua testa. Ainda orando, ele se levantou e olhou através da escuridão, ouvindo um murmurar distante de vozes. Um dos seus discípulos (um talmidim), Judas, se aproximava. Seguia-o um grupo de soldados, subindo o monte.

Sob uma árvore próxima, Pedro, Tiago e João estavam deitados no chão. Duas vezes Jesus lhes implorou para que ficassem acordados, para que vigiassem com ele, na noite mais difícil de sua vida. Mesmo assim, ali estavam eles, cobertos por seus mantos grossos , bocas entreabertas, e roncando suavemente, desapercebidos da ameaça que se aproximava…

Então foram para um lugar chamado Getsêmani, e Jesus disse aos seus discípulos: “Sentem-se aqui enquanto vou orar”.

Levou consigo Pedro, Tiago e João, e começou a ficar aflito e angustiado.

E lhes disse: “A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal. Fiquem aqui e vigiem”. Indo um pouco mais adiante, prostrou-se e orava para que, se possível, fosse afastada dele aquela hora. E dizia: “Aba, Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, mas sim o que tu queres”. Então, voltou aos seus discípulos e os encontrou dormindo. “Simão”, disse ele a Pedro, “você está dormindo? Não pôde vigiar nem por uma hora? Vigiem e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca.”

Mais uma vez ele se afastou e orou, repetindo as mesmas palavras. Quando voltou, de novo os encontrou dormindo, porque seus olhos estavam pesados. Eles não sabiam o que lhe dizer. Voltando pela terceira vez, ele lhes disse: “Vocês ainda dormem e descansam? Basta! Chegou a hora! Eis que o Filho do homem está sendo entregue nas mãos dos pecadores. Marcos 14:32-40 (NVI)

Sempre que eu lembro desta cena do Getsêmani, é inevitável que eu pense nos discípulos narcolépticos de Jesus. Como eles conseguiram dormir quando seu Rabino amado lhes implorou que permanecessem acordados e vigilantes? Como eles conseguiram cair no sono quando a história da salvação estava para atingir o seu clímax? Eu não consegui imaginar uma resposta satisfatória, e esta era apenas umas das várias perguntas que enchiam minha cabeça sempre que eu pensava naquela semana fatal.

Eu lembrei de cultos de Domingo de Ramos que eu presenciei antes, no qual apenas alguns minutos depois das crianças virem abanando alegremente ramos de palmeiras para celebrar a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, o clima muda, tornando-se solene à medida em que a narrativa da paixão é lida. Por que as multidões em Jerusalém estavam tão volúveis, adorando Jesus numa semana e odiando-o na próxima? E por que, eu tentei entender, Jesus escolheu um seder (uma liturgia bíblica) de Páscoa para celebrar a última refeição da sua vida?

Avance dois mil anos, para o salão de reunião da minha igreja, na tarde de Quinta-feira antes da Páscoa, conhecida como Quinta da paixão. Nós estamos fazendo preparativos para um seder de Páscoa. Como amadores gentios, estamos fazendo o melhor que podemos para recriar a Última Ceia, dando-nos uma chance de meditar no seu significado. Exatidão histórica perfeita não é o alvo. Nosso alvo é reviver um pouco da última noite de Jesus com seus discípulos, a fim de apreciarmos melhor o culto da Quinta da paixão.

Por toda a tarde a cozinha fervilha com barulho de panelas e conversas, enquanto corremos cumprindo nossas responsabilidades, picando salsa, cozinhando ovos e servindo molho tártaro nos pratos. Quando finalmente nos sentamos, eu estou faminta. O relógio se arrasta enquanto eu aguento a longa liturgia do Seder (sequência de textos bíblicos), só com uma mordida de salsa molhada em água com sal, e matzah (pão sem fermento) bem duro, com molho tártaro para degustar. Quando finalmente chegamos à nossa simples refeição de cozido de carneiro, eu devoro meu humilde banquete! Depois, apressadamente ajudo na limpeza e entro no culto que já começou, sentando-me lá no fundo. A liturgia é triste e solene.

Os acontecimentos do dia começam a pesar sobre mim – os preparativos incessantes, início da liturgia sentindo-me esfomeada, e depois comilança para compensar. Eu sinto uma letargia esmagadora me tomar. Na próxima hora, as luzes do santuário gradualmente diminuem para escuridão total. Eu quase nem consigo enxergar através de pálpebras semi-fechadas. À medida em que o culto prosegue, eu levo um susto. Alguém chamou meu nome? Eu quase consigo ouvir a decepção na voz de Jesus “Nem por uma hora você consegue vigiar comigo?”

Eu sempre pensei que as multidões tinham sido inimaginavelmente volúveis.

Subitamente eu entedi porque foi tão difícil para os discípulos ficarem acordados! E eles tinham uma desculpa ainda melhor que a minha. A comemoração tradicional da Páscoa envolvia uma refeição imensa e quatro copos de vinho, e eles começaram ao por do sol e terminaram depois da meia noite. Além do mais, isso ocorreu depois de vários dias de viagem e preparativos exaustivos. Com certeza todo mundo em Jerusalém gostaria de ir direto para a cama após o banquete tarde da noite. Conscientes deste constante problema, os rabinos decidiram que uma pessoa que sonecasse levemente poderia ainda fazer parte do jantar da Páscoa, mas qualquer pessoa que dormisse profundamente não poderia.

Nossa tentativa amadora de reviver a Última Ceia deu-me oportunidade de descobrir outras coisas sobre as últimas horas da vida de Jesus. Por exemplo, eu entendi porque os líderes tinham combinado de prender Jesus depois da refeição da Páscoa. Um homem tão popular não poderia ser preso à luz do dia. Para evitar um tumulto, os chefes dos sacerdotes tinham de proceder em segredo. Então eles deixaram Judas levá-los a Jesus enquanto ele estava fora da cidade. Páscoa era a escolha perfeita, porque toda família judaica estaria celebrando a festa que começava ao por do sol.

A prisão e o julgamento de Jesus foram tranquilos, ocorrendo durante a madrugada, quando a maioria das pessoas que o apoiavam estavam dormindo. As negações de Pedro ocorreram quando o galo cantou, por volta das quatro ou cinco da manhã. De acordo com o evangelho de Marcos, a última fala de Jesus foi dita ao nascer do sol (Marcos 15:1). Temos que perguntar, que grupo de pessoas estava acordado ao amanhecer num grande feriado judaico para gritar “Crucifica-o!”? A maioria, sacerdotes corruptos e soldados romanos que queriam matar Jesus.

Mas, tem mais. Jesus foi crucificado às nove da manhã – a hora do primeiro culto do dia no Templo ! As autoridades sabiam que tinham que terminar seu julgamento secreto antes que as multidões reentrassem na cidade. E de fato, enquanto Jesus carregava sua cruz para fora da cidade, as pessoas que o apoiavam reaprarecem, chorando alto ao verem-no ser levado para sua morte (Lucas 23:27). Seus seguidores acabavam de tomar conhecimento do que havia sucedido durante a noite.

Antes da nossa celebração da Páscoa na minha igreja, eu sempre julgara as multidões inimaginavelmente volúveis, vibrando com Jesus num dia e gritando por sua cabeça no outro. Mas os que apoiaram Jesus nunca mudaram de idéia! Como poderiam, se nem estavam presentes na sua prisão e julgamento? A conspiração inteira foi executada depois da comemoração da Páscoa, enquanto a maioria das pessoas dormia profundamente.

Veja mais mensagens e imagens da Páscoa em www.hermeneutica.com/mensagens/.


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